Debate ENTB 1

Há uma tentativa de debate a cerca da Escola Nacional de Treinadores de Basquete que tem sido proposto por alguns blogueiros, em especial pelo Paulo Murilo. Agora, com a posição de Raul Lopes (Pernambuco), gerou uma intervenção do Dante de Rose (São Paulo e ENTB) que é saudável e proporciona a reflexão sobre o tema. Reproduzo diálogo ocorrido entre os dois e que foi amplamente divulgado pelo Clipping do Basquete, mantido pelo Alcir Magalhães. O mesmo mostra que há espaço para o debate e que pelo menos alguém na ENTB esta disponível para realizá-lo e até mesmo esclarecer dúvidas que são resultados de anos de uso indevido da CBB.
Meu parecer? No momento quero destacar a necessidade de reconhecermos como legítima a remuneração dos profissionais que trabalham na ENTB e que se o processo é de interesse da CBB, essa deveria buscar recursos na Lei de Incentivo ao Esporte e no COB para formar os técnicos da modalidade, baseado na premissa que é uma das responsabilidades estatutárias da CBB fomentar a prática da modalidade e é impossível ocorrer prática competitiva sem formação de base qualificada. Vamos ao debate?


From: Raul Lopes
Sent: Thursday, January 20, 2011 8:45 PM
Subject: Escola de Técnicos

Alcir,
Mantive contato com Dante de Rose e de comum acordo entendemos que o que foi tratado deve ser divulgado para a comunidade através do Clipping. 
O objetivo principal é deixar claro que o embate de ideias não significa alimentar desavença, inimizade ou coisas do gênero.
Portanto, se considerar pertinente, agradecemos a divulgação.

PRIMEIRA MENSAGEM DE DANTE:

Caro Raul
Tive conhecimento do seu email ao Alcir Magalhães fazendo ataques diretos à ENTB e às pessoas que dela fazem parte, com acusações sérias. Eu sou uma das pessoas que tem participado deste processo e fico realmente espantado com suas colocações.
Você me conhece pois já tivemos contato direto em outros cursos e talvez esteja faltando um pouco mais de esclarecimentos sobre os propósitos da ENTB.
Eu estarei no Recife para o citado curso e gostaria de poder falar contigo para que pudéssemos discutir o processo e receber de você contribuições assim como temos feito com outras pessoas.
Fico à sua disposição
Atenciosamente,

Dante
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RÉPLICA (RAUL)
Prezado Dante

Infelizmente em momento que aparenta situação desconfortável, inicialmente quero referir  minha satisfação em receber sua mensagem.
Claro que nos conhecemos!
Tivemos oportunidade em diversas ocasiões, de compartilhar o mesmo cenário (em cursos da saudosa ANATEBA, encontros científicos, etc.).
Assim, não é por acaso que desde sempre, você (e Lula Ferreira) são os autores que recomendo (e continuarei recomendando) para os meus alunos da graduação na disciplina Basquete.
Portanto, não está em discussão a competência e a capacidade sua e alguns outros nomes que constam na relação de pessoas que estão envolvidas com a ENTB.
Refiro-me a Aluísio Ferreira, Roberto PaesFlávio Davis, Balbino (e alguns outros que agora me escapam) por serem referências de longa data não apenas no basquete, mas também no espaço acadêmico.
Porém, esta falta de conhecimento mais aprofundado das demais pessoas não significa que certamente elas não sejam certificadas, qualificadas e competentes.
Então, se o que você refere como parte das “acusações sérias” contra pessoas que fazem a ENTB tem a ver com possível falta de certificação, qualificação e competência, espero que o parágrafo anterior tenha dissipado esta dúvida.
Porém, se o “espanto” e as “acusações sérias” estão relacionadas ao que escrevi sobre  “ ... tem gente ganhando dinheiro nessa história.”, não se trata de acusação, mas de uma constatação. Até porque, em nenhum momento nominei, muito menos acusei alguém de ações desonestas.
Mas, o fato concreto é que os cursos são pagos (e o valor não é pequeno). Obviamente, como alguém paga, inevitavelmente alguém recebe (não importando quem ou quanto).
Esta é a lógica de qualquer relação comercial e sobre esse tema vou solicitar autorização para encaminhar-lhe e-mail de Ricardo Lima, vice-presidente da Federação Pernambucana de Basketball recebido há poucos momentos e enviado para muitas pessoas que fazem basquete em nosso estado.
Por este motivo, quando questiono a ENTB o faço principalmente em função de:
a) descaso histórico com a realidade brasileira que não se resume apenas ao sul/sudeste, porém esta prática por ser recorrente e considerada normal, foi repetida na gênese da ENTB que não buscou tornar a discussão um fato nacional; b) estrutura e formato adotadosque me parecem fadados ao fracasso, porque numa análise aprofundada da relação ensino-aprendizagem/tempo o processo não apresenta consistência e não serão duas, três ou n provas que vão garantir atestado de qualidade; c) cobrança de valores para realização dos cursos, porque entendo que deveriam ser gratuitos ou no máximo a cobrança de valores simbólicos, levando em conta, neste caso, a realidade sócio-econômica de cada região; d) questões de ordem legal que certamente serão motivo de demandas judiciais legítimas, caso direitos adquiridos sejam prejudicados.
No meu entendimento, o que entendo como equívocos, felizmente, podem e espero venham a ser superados. E é exatamente sobre isso que trato no tópico 1 da mensagem enviada sobre não ser contra “... a ideia, porém, o formato em que foi estruturado” (o processo de implantação e ações desenvolvidas pela ENTB).        
Aliás, já tem algum tempo que, no que considero fragilidade, reiteradas vezes teci considerações e opinei sobre o que pensava da ENTB para Luís Morais (presidente da Federação Pernambucana de Basketball) e ao próprio Carlos Nunes durante breve encontro no Aeroporto do Galeão em novembro último.  O primeiro, inclusive, chegou a dizer que teríamos oportunidade de discutir a ENTB com quem de direito. Isto nunca ocorreu. Talvez por não haver necessidade e/ou interesse em escutar opiniões divergentes. 
Por outro lado, o núcleo da minha comunicação refere-se ao fato de que não quero que o meu nome seja associado ao curso da ENTB (por tudo o que foi exposto acima) e nada mais do que isso.
Esta decisão foi gerada em função de ligação telefônica de certa forma grosseira e inquisitiva, que recebi nesta segunda-feira de um ex-aluno. Ele indagou sobre o custo, nível do curso, questões legais e coisas do gênero. Além disso, tomei conhecimento do comentário de pessoa que milita no nosso basquete atribuindo a mim a paternidade do curso em Recife.
Como não tenho nada a ver com o fato, resolvi que deveria esclarecer a comunidade do basquete em Pernambuco que sou a pessoa menos indicada para tratar sobre o assunto.  Quanto a disseminar nacionalmente, apenas atendi pedido de um dos nossos técnicos que entendia que a informação deveria extrapolar nossas fronteiras.
Pela “enxurrada” de mensagens recebidas até o momento, ele estava correto.
Olhando pelo lado positivo, de certa forma, foi até bom. Não fosse assim, esta oportunidade de “conversar” com você para dirimir dúvidas e abrir um canal de discussão não teria acontecido.
Por último, infelizmente, não terei o prazer de encontrá-lo aqui em Recife porque viajarei no dia 24 e não estarei na cidade na época do curso.
Quem sabe em outro momento tenhamos a oportunidade de conversar sobre o assunto em pauta, porque no final das contas o que nós queremos é um basquete melhor, disso não tenho a menor dúvida.
Então, a menos que pensamento divergente signifique pecado imperdoável, mesmo os caminhos sendo diferentes, quem sabe possamos encontrar atalhos comuns?
Abraço fraterno

Raul
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TRÉPLICA (DANTE)
Caro Raul
Agradeço seu email e gostaria de me posicionar sobre alguns pontos levantados:
1 - Quando começamos a elaborar o projeto da ENTB pensamos em ter  conosco pessoas ligadas ao basquetebol e que pudessem prestar um  serviço relevante a partir da Escola. Reunimos um grupo de técnicos e acadêmicos de reconhecido nível para iniciar as discussões do projeto.
Conseguimos reunir treinadores da Liga, treinadores ligados aos  projetos da CBB (base) e acadêmicos. Nossa ideia, em um segundo momento, seria ter pessoas ligadas ao basquetebol em diferentes regiões do país para podermos estender a ideia e termos interlocutores que representassem suas comunidades e por elas fossem reconhecidos.
Eu, pessoalmente, citei seu nome para ser esta pessoa no Recife, por conhecê-lo e por saber de sua luta pelo basquetebol na região. Essa ideia, por vários motivos, não foi colocada em prática imediatamente mas ela permanece e os cursos de nível 1 seriam momentos interessantes para esse contato. Infelizmente, você não esteve no curso de nível 3 onde pudemos realizar contatos e conversas com diferentes representantes dessas regiões. Mas isto não fez com que eu mudasse de ideia a seu respeito e continuei afirmando que você seria a pessoa indicada para tal função.
2 - O corpo docente da Escola para os cursos de nível 1 foi formado a partir deste primeiro grupo dando prioridade a pessoas com experiência nas categorias de base, mas sempre pensando em agregar convidados para trazer mais conhecimento e experiência aos alunos. Com isto definimos que os cursos teriam sempre 4 professores do referido corpo docente e um convidado especial que atuaria efetivamente, não somente fazendo uma palestra de abertura ou encerramento. A definição dos quatro docentes constantes do quadro depende da disponibilidade dos mesmos, já que todos têm outras funções seja nos clubes ou nas universidades nas quais atuam. Assim foi no Rio de Janeiro com a presença do Hermes, Tácito, Lula, Byra Bello, Diego, eu e Ruben Magnano. Para o curso do Recife mantivemos a base (Dante, Hermes e Tácito), levaremos o Prof. Sérgio Maroneze (integrante da comissão técnica da seleção feminina campeã de 94 e professor de basquetebol de conceituada universidade em S.Paulo) e nosso "convidado" será novamente o Ruben Magnano que atuará em 3 sessões (total de 6 horas) assim como o fez no Rio. Portanto, acredito ser este um grupo competente e sério que atuará de forma bastante efetiva no curso.
3 - Quanto aos custos, esta questão foi discutida pelo grupo e não há como fugir de custos básicos como passagens, hospedagem, alimentação dos palestrantes, material didático (os alunos receberão uma apostila de cerca de 180 páginas com um conteúdo muito bom desenvolvido por vários profissionais da área e receberão via email textos complementares abordando assuntos que não serão desenvolvidos diretamente no curso como aspectos psicológicos, aprendizagem motora, detecção de talentos, aspectos biomecânicos, todos aplicados ao basquetebol). A ENTB não tem receita própria e a CBB tem arcado com esses custos assumindo possíveis prejuízos (que estão acontecendo). A ENTB não tem a intenção e não pode ser um entidade com fins lucrativos. Assim sendo ainda dependemos da CBB e dos valores auferidos com as inscrições. Deixo claro que os profissionais que participam dos cursos têm um pró labore (e eu defendo que os profissionais sejam pagos pois oferecem seu tempo para trabalhar pela escola) e o valor pago está muito abaixo do que normalmente se paga no mercado de cursos. Quanto ao valor de 320,00 considero um valor que está abaixo da realidade dos valores cobrados em cursos semelhantes.
4 - Quanto a questões jurídicas a ENTB está consultando pessoas da área para que possamos realizar as coisas dentro da legalidade.
5 - Você levanta um ponto importante quando se refere ao "descaso histórico" e isto é um dos motivos pelos quais a ENTB quer ampliar sua atuação buscando as diferentes regiões do pais.
6 - Em relação a vinculação de seu nome, deixo claro que a sugestão foi minha mas em nenhum momento o fato foi concretizado. Portanto, se houve alguma vinculação sem sua autorização creia que não partiu da Escola.
7 - Finalizando, a discussão é sempre saudável e eu estarei sempre aberto a esse tipo de debate, pois como você mesmo citou "nós queremos um basquete melhor". Pena não podermos estar juntos para discutirmos o assunto. Suas opiniões e experiências são fundamentais mesmo não querendo participar diretamente do processo.
Receba meus cumprimentos e respeitos com a certeza de que esses episódios não afetam em nada nosso relacionamento.
Grande abraço

Dante
Ps: se você permitir gostaria de pedir ao Alcir para reproduzir este email.