quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Indianápolis, 23 de agosto de 1987

"Esse jogo mudou a minha vida. Nós lutamos contra o impossível e vencemos o invencível. Depois daquele dia, eu passei a acreditar que posso fazer qualquer coisa na vida." (Marcel)

Era um domingo de sol. Sexta havia sido de garoa e frio. Sábado chuviscou o dia todo. Viajei de Bagé a Pelotas, onde passei o final de semana. Vi a semi-final e iriam transmitir a final. Resolvi voltar pra casa no domingo, na hora do jogo, pois o Brasil não venceria aquela final depois daquela semi-final de franco atirador contra o México: Oscar marcou 53 pontos naquele dia e ninguém marcava nada. Já tinha cumprido sua missão. Para minha surpresa, quando cheguei em Bagé, o basquete mundial tinha dado o primeiro grande passo para a mudança, afinal as equipes universitárias americanas eram tão invencíveis quanto imaginava-se seriam os jogadores da NBA - o mundo descobriu o quão imbatíveis são as equipes formadas por jogadores da NBA em Barcelona (1992).


Eram 12 atletas, 2 técnicos e demais membros de uma comissão, mas somente um é lembrado, reverenciado... Muito em função dos 46 pontos que fez na partida, dos 7 de 15 arremessos de 3 pontos convertidos e da forma guerreira que se manteve jogando por mais 15 anos depois daquele Pan. O individualismo nos esportes coletivos surge de atitudes que elevam os grandes jogadores, mas acabam desconsiderando, colocando em segundo plano os demais. Vejam o que ele disse do Israel (Pivô): "em nosso jogo contra os Estados Unidos, Israel foi um monstro [...]". E foi mesmo: 14 rebotes, 12 pontos e anulou Danny Manning. E de Marcel, o que diz Ary Vida no livro? "Numa palavra, é um técnico dentro da quadra. [...] Marcel é um dos melhores laterais brasileiros de todos os tempos". Sim, anulou Rex Chapman, pegou 10 rebotes e marcou 31 pontos. Quer mais? E ainda temos outros 10 jogadores que contribuíram para este magnífico resultado. 

E, como dizia o poeta, o tempo não pára. Hoje, chegamos ao trigésimo aniversário daquela façanha e ela continua tão viva em nossas mentes que ainda dá vontade de vibrar pela conquista, saltar da poltrona a cada cesta (no segundo tempo). Porém, este dia deve se transformar em um marco de reflexão e análise do que o derrotado, Estados Unidos, fizeram para manter sua hegemonia. Mudaram a regra do jogo. Trouxeram a NBA pra dentro da FIBA e espraiaram-se pelos cinco continentes - via mídia e via ações pontuais da NBA. A partir daí, de uma análise profunda, reconstruiremos o nosso basquete. Deu certo lá, em 1987, e continua dando certo hoje em dia - vejam como joga o Golden State Warriors... Aquele domingo foi, de fato, o dia da mudança de paradigma na utilização da linha dos 3 pontos. 

 Levei muitos anos para ver o jogo, pois estava na estrada - lembram? Não acreditava na vitória sobre o time americano. Cheguei em casa muito tarde e meus pais, eufóricos, me receberam dizendo "o Brasil venceu!!!". Não acreditei que tinha perdido de "participar" daquele feito histórico. Procurei, por anos, uma cópia do jogo e não encontrei. E, antes de ver o jogo, li o livro de Ary Vidal sobre a preparação e resumos de todas as partidas, com especial destaque para esta final. Magnífica narrativa. Este livro, apesar de editado pela Ridel, foi escrito pela insistência do público americano. Percebem a importância que dão ao trabalho de grupo, de equipe? Quem tiver acesso deve ler, reler e deveria ser parte do debate sobre a formação de técnicos e professores de educação física, na disciplina Basquete ou em Pedagogia do Esporte. Quem leu o de Michael Jordan, riquíssimo em detalhes, vai adorar, apesar de ser mais curto, as informações que constam e a narrativa... Repito: Magnífica! 

   


Vejam um trecho da narrativa... E imaginem a sensação... 



Parabéns aos atletas e a comissão técnica. Obrigado pelos ensinamentos. Obrigado pela luta.

Paulinho Villas-Boas
Maury de Souza 
Gerson Victalino 
André Stoffel 
Rolando Ferreira 
Ricardo Guimarães (Cadum) 
Jorge Guerra 
Marcel de Souza 
João Viana (Pipoca) 
Sylvio Malvezi 
Oscar Schmidt 
Israel Andrade 
Técnico: Ary Vidal 
Assistente: José Medalha 
Preparador Físico: Valdir Barbanti 
Administrador: Victor Garcia
Médicos;  Dr. César de Oliveira 
Dr. Paulo de Rossi 
Coronel Carlos Dias (Presidente CBB)


Postar um comentário